A evolução do voluntariado nos Jogos Olímpicos

As organizações de voluntários são criaturas de seus tempos: eles refletem as estruturas de seus tempos e as preocupações de suas épocas. (Nigel Gann)


O conceito de voluntário social é descrito por especialistas e pode se modificar de acordo com as diferenças sociais e culturais de cada região e a natureza do serviço voluntário (convicções políticas ou religiosas, por exemplo). No entanto, é possível estabelecer alguns pontos em comum:

  • Compromisso Voluntário: É individual e não obrigatório.
  • Altruísmo: motivação sem fins lucrativos.
  • Contribuição social: a ação contribui de alguma forma para a sociedade.

Ou seja, ser um voluntário envolve um compromisso de agir com base em uma decisão livre e pessoal, que é motivada por princípios de solidariedade e altruísmo.

O conceito de voluntário olímpico foi explicitado pela primeira vez no glossário do reporte oficial dos Jogos de Barcelona em 1992.

"O voluntário é uma pessoa que faz um particular compromisso altruísta para colaborar com o melhor de suas habilidades no âmbito da organização dos Jogos Olímpicos na realização das tarefas atribuídas a ele sem receber pagamento ou recompensas de qualquer outra natureza"

No entanto, a figura do voluntário estava presente em diversas outras edições de Jogos Olímpicos antes de Barcelona. Existem organizações desportivas que incluem um elemento voluntário estável ou permanente e outros que criam grupos de voluntários para realizar determinadas, projetos concretos e alcançar determinados objetivos. Por exemplo, em um certo número de federações nacionais, especialmente aqueles com menos membros, papéis profissionais são realizados por voluntários. No início do Movimento Olímpico, o trabalho profissional também foi realizado de forma voluntária. O próprio Pierre de Coubertin (idealizador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna), com o apoio de amigos e os chefes das associações desportivas contemporâneos, trabalhou numa base voluntária para criar o Comitê Olímpico Internacional (COI) e lançar os Jogos Olímpicos Modernos. 

O anonimato dos primeiros voluntários em Jogos Olímpicos

Inicialmente eram apenas dois grupos definidos que auxiliavam voluntariamente a organização dos Jogos Olímpicos: os escoteiros e o exército. 


Um escoteiro voluntário é atendido durante a abertura dos Jogos de Londres em 1948.

Desde os jogos de Estocolmo em 1912 a classe dos escoteiros auxiliava em tarefas como a entrega de mensagens, manutenção da ordem e segurança, auxílio ao público e outras funções físicas como carregadores de bandeiras ou equipamentos. A participação dos escoteiros aumentava a cada ano nos Jogos antes da Segunda Guerra Mundial (Antuérpia 1920, Paris 1924 e Amsterdam 1928). Na edição dos Jogos de Berlim em 1936 os escoteiros foram substituídos pelo Movimento da Juventude Nazista e posteriormente houve um movimento para dispersar a participação dos escoteiros nas edições seguintes. Esse movimento não foi a frente no pós guerra, garantindo assim a ação dos escoteiros nos Jogos de Helsinki 1952. E nesta edição dos Jogos foi feita a primeira menção ao trabalho voluntário das mulheres, que segundo a estatística foram 574 no total de 2.191 voluntários.

O exército também desempenhou um grande papel na atuação voluntária nas primeiras edições dos Jogos tendo a sua primeira menção nos Jogos de Inverno em Cortina d'Ampezzo 1956 com destaque ao apoio logístico das cerimônias e preparação dos eventos. Na década de 60 a presença do exército se mantinha e as funções eram mais ligadas as atividades atuais dos voluntários: preparação e manutenção dos locais de competição, transporte dos organizadores, transporte de equipamento, auxílio nas cerimônias e ajuda de backstage. A segurança era a principal função deste grupo em Jogos Olímpicos e atuaram em diversos protestos políticos que aconteceram nas edições de 1968, 1972, 1980, 1984 e 1988.


O voluntariado no Pós-Guerra

Nos anos 50 e 60 mesmo com a presença dos escoteiros o voluntariado foi tomando uma nova forma, novas funções surgiram e estas passaram a ser mais integradas ao Comitê organizador e os voluntários passaram a trabalhar lado-a-lado com assalariados tanto nos Jogos de Verão quanto nos de Inverno. Funções como conferência de ingresso, monitoramento de multidões, attachés e algumas funções técnicas apareceram nos Jogos de Oslo em 1952.

Em algumas edições houve pagamento em dinheiro para os voluntários, em Helsinque 1952 federações de jovens voluntários auxiliaram na organização dos Jogos eles tinham de 11 a 50 anos de idade e receberam um valor total de 3.072.270 que foi dividido entre os voluntários.


Logo dos Jogos Olímpicos de Inverno Lake Placide 1980

Com o passar dos anos a presença de voluntários que não eram ligados a nenhuma instituição aumentava, ganhando diversas funções a cada edição dos Jogos. Até os Jogos de Lake Placid em 1980, mesmo ano em que a eleição de Juan Antonio Samarach como presidente do COI mudou os rumos da instituição, cujo o reporte oficial dizia "Sem o exército de 6.700 voluntários, os XII Jogos Olímpicos de Inverno não poderiam ter se tornado realidade". Eram voluntários que não faziam parte de nenhuma associação e não receberam nenhuma recompensa ou prêmio e, portanto, em conformidade com o conceito atual de voluntário. Além do mais o treinamento destes voluntários foi de acordo com a capacidade individual em diversos esportes. Sendo portanto o modelo mais próximo do que acontece atualmente em Jogos Olímpicos.


Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Verão Los Angeles 1984.

No entanto, alguns documentos olímpicos não consideram Lake Placid como sendo o ponto de início do voluntariado olímpico atual, dando essa honra aos Jogos de Los Angeles 1984. Na edição de verão em LA houve mais planejamento e uma organização consolidada com a participação de aproximadamente 30.000 voluntários. Embora seja verdade que a olimpíada californiana marcou um momento chave na história do voluntariado Olímpico, em termos do número de voluntários e da gama de tarefas executadas por eles, também é verdade que a motivação subjacente era mais materialista e econômica do que em outros jogos , como Sarajevo e Lake Placid.

O fenômeno do voluntariado se consolidou em 1992 nos Jogos de Barcelona e Albertville. Além disso, é preciso lembrar que os próprios jogos assumiram grandes dimensões como "mega-eventos" e, sem dúvida, tornaram-se o mais importante evento no calendário esportivo internacional. O número de participantes, atletas e pessoas da mídia dispararam, e neste novo cenário o papel do voluntário também adquiriu novas dimensões, tendo sido incorporada na estrutura e plano global de uma forma organizada.


Número de voluntários em cada edição de Jogos Olímpicos, segundo dados do COI.
De acordo com o COI, os números de voluntários só aumentaram após o 'boom' de 1992. É possível perceber um enorme engajamento com o voluntariado olímpico com o passar dos anos. A complexidade do evento também aumentou e consequentemente a necessidade por voluntários hoje é normalizada em 45.000 para a realização de uma edição dos Jogos Olímpicos de Verão. Já os jogos olímpicos de inverno por ser um evento compacto tende a variar seu número de voluntários. 

Um destaque é o número de 70.000 voluntários nos Jogos Olímpicos de Beijing em 2008 e mais 30.000 nos Jogos Paralímpicos, totalizando 100.000 voluntários. Mesmo que alguns digam que não foram tão voluntários assim, devido ao regime ditatorial presente na China. Uma outra curiosidade é a inexistência da palavra voluntário em Russo, criada para a realização dos Jogos de Sochi em 2014. E por falar em Russos, eles são a maioria dos candidatos estrangeiros para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 que selecionará 45.000 voluntários para os Jogos Olímpicos e 25.000 para os Jogos Paralímpicos, número de voluntários igual ao usado em Londres em 2012.

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